Coleção de Vinil

domingo, 9 de março de 2014

Discografia 10 | Steve Ray Vaughan

No post Discografia de hoje, vou falar de um guitarrista incrivelmente talentoso, que iniciou a revitalização de Blues nos anos de 1980: Stevie Ray Vaughan. Ele tem o posto de bluesmen assim como Albert King, Buddy Guy, Albert Collins, Jimi Hendrix e Lonnie Mack, além de guitarristas de jazz como Kenny Burrell e Wes Montgomery, desenvolvendo um estilo excepcionalmente eclético e magnífico, fazendo uma ponte entre Blues e o Rock como nenhum outro artista desde o final dos anos de 1960. De 1983-1990 Stevie Ray era a liderança no Blues americano, com shows lotados e álbuns que eram disco de ouro em pouco tempo. Mas sua trágica morte em 1990, aos 35 anos, interrompeu uma carreira brilhante quando estava à beira do estrelato.
Vou comentar a trajetória desse excelente guitarrista destacando os quatro principais álbuns da carreira: "Texas Flood" (1983), "Couldn't Stand the Weather" (1984), "Soul to Soul" (1985) e "In Step" (1989).
Stephen Ray Vaughan nasceu no dia 03 de outubro de 1954, no hospital Metodista de Dallas, no estado americano do Texas. Filho de Jim e Martha Vaughan, teve através do irmão mais velho, Jimmi Vaughan, seu primeiro contato com a música e a guitarra, instrumento no qual Jimmie já ensaiava seus primeiros passos. Durante o início dos anos de 1960, Stevie conheceu as ricas ondas sonoras das rádios AM de Dallas, as quais possuíam uma variedade cultural e musical incrível, com sons dos mais variados lugares dos E.U.A. como Chicago, Mississipi, Memphis e Louisiana, sendo a “musica racial”, como era conhecido o Blues naquela época, a que despertara maior interesse no garoto.

No começo dessa década, mais precisamente em 1961, Stevie então com 7 anos de idade, ganha sua primeira guitarra, na verdade um instrumento de brinquedo da loja de departamentos Sears, na qual ele aprendeu a tocar as primeiras músicas tais como “Wine, Wine, Wine” e “Thunderbird”, da banda The Nightcaps. Esta mesma guitarra foi modificada por Stevie, que transformou-a em um contra-baixo, pois assim podia acompanhar seu irmão Jimmie, que era guitarrista. Uma foto desta guitarra, já encordoada como um contra-baixo, pode ser conferida na contra-capa do álbum “Family Style”, do “The Vaughan Brothers”.
Em 1963, compra seu primeiro disco, “Wham” de Lonnie Mack. Stevie ouvia este álbum muitas vezes seguidas, o que levou seu pai a quebrá-lo em pedaços. Por volta desta época, Stevie obtém sua primeira guitarra elétrica, um instrumento feito a mão, que lhe é presenteado por Jimmie. Jimmie Vaughan tocaria posteriormente em uma banda local chamada “The Chessmen”, de repertório composto de covers, bastante popular na região de Dallas e que começava a ficar conhecida em outras regiões do Texas, como San Antonio e a Costa do Golfo. Nesta banda, junto a Jimmie, fez parte o vocalista/baterista Doyle Bramhall, que nos anos seguintes foi um importante instrumento no desenvolvimento de Stevie como compositor e instrumentista.
Stevie começa a tocar em bandas aos 12 anos de idade, entrando e saindo de grupos locais, sendo que em nenhuma deles conseguiu repetir o sucesso que Jimmie gozava junto ao “The Chessmen”. Em 1970, Stevie integra uma banda chamada “Blackbird”, enquanto Jimmie Vaughan e Doyle estavam com um novo projeto, chamado “Texas Storm” com um som calçado no Blues. Quando Jimmie pergunta a Stevie sobre a possibilidade dele tocar contra-baixo para o “Texas Storm”, ele resolveu aceitar, sendo que algumas destas apresentações ocorrem fora da cidade, uma delas em um clube chamado “Vulcan Gas Company”, na cidade de Austin. No começo dos anos de 1970, a cidade de Austin era uma espécie de Berkeley, com um caldeirão cultural em ebulição, acompanhado de uma forte consciência política, lendas e folclore, sede da Universidade Estadual do Texas e tudo mais que dava a ela ares de uma cidade “hippie”.
Em Austin, Stevie encontra um ambiente bastante familiar que tinha no Blues, uma de suas principais formas de expressão. Em 1971 Stevie, então com 17 anos, grava em estúdio pela primeira vez com a banda “Cast of Thousands” para uma coletânea de bandas locais chamada “A New Hi”. Além de muito raro nos dias atuais, este álbum atinge preços exorbitantes quando encontrado entre colecionadores. Nesse mesmo ano Stevie muda-se para Austin juntamente com a banda que integrava na época, o “Blackbird”. Na cidade já moravam seu irmão Jimmie, o parceiro de banda de Jimmie, Doyle Bramhall, o vocalista Paul Ray, o nativo de Houston Keith Ferguson e W.C.Clark. Nessa época, Stevie começa a trabalhar para uma cadeia de lojas de Fast-Food, mas após ter caído acidentalmente em um barril cheio de gordura, clama a si mesmo nunca mais aceitar outro trabalho que não fosse o de músico.


No ano de 1972, Stevie troca o som do Blues do “Blackbird” pelo puro Rock’n’Roll do “Krackerjack”, no que seria a primeira parceria de Stevie com o baixista Tommy Shannon.. Após deixar o “Krackerjack” em 1973, Stevie junta-se ao “Nightcrawlers” que era composto por Drew Pennington (vocais), o baixista canhoto Keith Ferguson, Doyle Bramhall (bateria), e eventualmente o irmão de Doyle, Ronnie Bramhall (teclados Hammond). Como curiosidade, o “Nightcrawlers” possui um álbum gravado, porém nunca lançado. Em 1974, Stevie obtém aquela que seria sua marca registrada durante toda a carreira, a Fender Stratocaster toda descascada conhecida como “Number One”. Conforme o ex-técnico de guitarra de Stevie, Rene Martinez, existem muitas histórias em relação a essa guitarra. Stevie sempre referia-se a ela como ’59 (uma referência ao suposto ano de fabricação) e certa vez, numa rotineira desmontagem para manutenção, Rene descobriu que havia a inscrição “1962” no braço da guitarra e na cavidade do corpo, denunciando seu verdadeiro ano de fabricação. Quando questionou Stevie o porquê dele se referir a guitarra como ’59, Stevie lhe disse: “ – Se você olhar atrás dos captadores, “1959” está escrito a mão.”. Desde então, ’59 foi como Stevie passou a referir-se ao instrumento.
No final de 1974, Paul Ray, vocalista da banda Paul Ray and The Cobras convida Stevie para o posto de segundo guitarrista de sua banda. Depois de Steve aceitar o convite, o grupo teve uma rotina de shows que consistiu de aproximadamente cinco apresentações por semana, pelos próximos dois anos que se seguiram. A estréia de Steve ocorre em um show no fim de 1974, numa apresentação em um clube chamado “Soap Creek”. Com a crescente popularidade, a banda é convidada para tocar no clube “Armadillo”, um clube de Austin conhecido pela falta de hospitalidade com as bandas locais.
No meio do ano de 1975, é aberto o hoje famoso clube “Antone’s”, o que provoca uma “febre” do Blues em Austin. Logo após, Paul Ray é aconselhado por médicos a encerrar suas atividades como vocalista, devido a problemas na garganta e consequentemente, a banda também encerra suas atividades. Paul Ray posteriormente comandou um programa chamado “Twine Time Radio Show”, na rádio KUT de Austin, onde as bandas apresentavam-se ao vivo no estúdio.
Stevie começa então a sondar possíveis nomes para formar uma nova banda, recrutando Lou Ann Barton (vocais), Mike Kindred (teclados), Fredde Pharaoh (bateria) e W.C.Clark (baixo), batizando posteriormente a banda como “The Triple Threat Revue”. O grupo faz suas primeiras apresentações no final de 1976, época em que Lou começa a ficar irritada com Stevie, que era o destaque principal da banda e dividia olhares da platéia com ela. Por outro lado, Stevie não queria lidar com uma vocalista com constantes ataques de estrelismo. Lou Ann resolve abandonar o grupo, sendo seguida pouco tempo depois por Mike Kindred e W.C.Clark; entrando Johnny Reno (saxophone) e Jackie Newhouse (baixo). Com todas essas mudanças, Stevie sentia que ainda assim faltava algo a ser mudado, algo que desse uma nova identidade ao grupo. Alguns amigos sugeriram uma pequena mudança no nome, mas Stevie já tinha algo que há tempos estava em sua cabeça e era o título de uma velha canção de Otis Rush. “Double Trouble”, a tal música, passou a ser o novo nome da banda de Stevie.
Em setembro de 1978, Chris Layton torna-se o novo baterista do Double Trouble e acompanharia Stevie até o fim de sua carreira. Após novas mudanças de formação e agora reduzida a um trio, a banda grava no dia primeiro de abril de 1980 no clube “The Steamboat”, em Austin, o show que seria lançado (incompleto) posteriormente no ano de 1992 com o título de “In the Beginning”.
Em 1981, Jackie Newhouse é substituído por Tommy Shannon. Shannon, ex-baixista da banda de Johnny Winter, havia participado no ano de 1969 do lendário festival de Woodstock como membro da banda de apoio de Johnny, tendo tocado anteriormente com Stevie em uma banda local durante a década de 1970. A banda já possuía uma grande reputação quando, no início de 1982, são convidados para tocarem em uma festa fechada promovida pelos Rolling Stones em uma danceteria de New York. É nessa época que começam a acontecer uma série de eventos, que somados as adversidades do início de carreira de Stevie e seus companheiros, resultaram na mágica da criação do álbum “Texas Flood”.


Jerry Wexler já era um renomado produtor quando assistiu pela primeira vez a uma apresentação de Stevie e o Double Trouble em Austin. Impressionado com a música e o entrosamento que a banda possuía, resolve ajudá-los a conseguir uma apresentação no Festival de Jazz de Montreaux. Em uma entrevista ao “Dallas Times Herald”, exatamente a um mês do primeiro show de Montreaux, Stevie dizia que sentia que as coisas estavam começando a acontecer para o Double Trouble, como uma espécie de recompensa por anos de trabalho duro e dedicação.
O Festival Internacional de Jazz de Montreaux de 1982 aconteceu entre os dias 9 e 25 de Julho, sendo que Stevie apresentou-se na noite do dia 17. Esta data foi marcada pelo predomínio de artistas que tocavam Blues acústico, sendo Stevie e o Double Trouble a única banda “plugada”. Além disso, eram praticamente desconhecidos fora das fronteiras do Texas e não possuíam um disco gravado; sequer tinham um contrato com gravadora. A resposta do público ao início da apresentação foi medíocre, que logo começa a vaiar a banda (como pode ser conferido no CD “Live at Montreaux – 1982”, no início da faixa “Texas Flood”).


Apesar da hostilidade da platéia, a banda emenda uma seqüência de 8 músicas, que foram uma verdadeira aula de como se tocar Blues. Nessa mesma noite, dá-se o encontro de Stevie com David Bowie, que havia assistido o show da audiência. Bowie era um grande fã de R&B e Blues e declarou que não ficava tão empolgado com relação a um guitarrista desde quando assistiu Jeff Beck e sua banda Trident em Londres, no início dos anos de 1960. Vaughan e Bowie tiveram uma longa conversa naquela noite após o show, onde ambos descobriram que tinham em comum uma grande admiração por Albert King e tantos outros mestres do Blues. Nessa noite, Bowie, que estava começando os trabalhos de gravação do novo disco “Let’s Dance”; convida Stevie para ser o guitarrista de sua banda. Stevie aceita não só ser seu guitarrista de estúdio, mas também o da tour de divulgação do álbum.


Na terceira semana de dezembro de 1982, Stevie entra no estúdio “Power Station” em New York, para adicionar suas linhas de guitarra ao trabalho, sob a supervisão do produtor Nile Rodgers. O solo na música “Let’s Dance” é uma espécie de tributo de Vaughan a Albert King. Stevie termina os trabalhos de gravação num espaço de tempo tão curto que surpreende a todos e após isso começam os ensaios para a turnê de divulgação do disco. Pouco antes do início da tour, o manager de Stevie telefona para o promotor responsável pelos shows para saber sobre a possibilidade de Stevie, nos dias em que houvesse um espaço na agenda de apresentações de Bowie, fazer algumas apresentações com o Double Trouble para a TV alemã. O promotor explicou ao manager de Stevie que não haveria problema, desde que isso ocorresse na segunda parte da turnê, pois todos estavam empenhados nos shows que estavam por vir e no seu entender isso demandava dedicação única e total a banda. No entanto, meia hora antes de o carro que levaria a banda ao aeroporto para as primeiras apresentações partir, enquanto Stevie e os outros integrantes da banda de Bowie carregavam suas bagagens, o manager de Stevie encontra-se com o promotor da turnê a fim de renegociar o cachê de Stevie, o que daria a ele um salário jamais pago a qualquer outro músico de Bowie, caso contrário, Stevie estaria fora da turnê. Como Bowie encontrava-se a milhares de milhas de distância na Bélgica e faltando pouco tempo para o avião partir, o promotor tomou para si a decisão e telefonou para o tour manager dizendo: “- Tire as bagagens do Sr.Vaughan do carro, ele decidiu não fazer mais parte desta banda.” Carmine Rojas, o baixista da tour naquela época, disse a Bowie que aquela fora uma das cenas mais tristes que ele já presenciara em todos os anos que fora um músico profissional; Stevie, de pé na calçada, rodeado por sua bagagem sem entender o porquê daquilo tudo. Carmine se diz convencido de que Vaughan sequer sabia das jogadas de seu empresário. Para o lugar de Stevie, Bowie chamou Earl Slick, que aprendeu todo o repertório do show no vôo para a Bélgica.
Voltando ao show de Montreaux, foi nessa oportunidade que ocorreu o encontro de Stevie com Jackson Browne. Na noite seguinte ao aparentemente equivocado show, Stevie e o Double Trouble estavam tocando no bar dos músicos, que se localiza embaixo do palco principal do festival. Browne e sua banda, após sua performance no palco acima, desceram até o bar para conferir o show de Stevie e o resultado foi uma jam que só acabou ao raiar do sol. Jackson Browne era o proprietário do estúdio Down Town, localizado em Los Angeles, na Califórnia. Da amizade de Stevie com Browne, surge o convite para Stevie e o Double Trouble fazerem uso de 72 horas do estúdio, sem nenhum custo à banda. Tudo o que Browne queria era poder proporcionar à banda a oportunidade deles gravarem uma fita demo que tivesse qualidade suficiente para ser apresentada a grandes gravadoras, a fim de conseguir um contrato. Eles sequer sabiam que estavam gravando seu primeiro álbum ao entrarem no estúdio de Browne, e talvez se tivessem esse conhecimento, a banda não teria conseguido passar para as fitas de gravação o clima que o álbum possui até hoje.
O primeiro dia foi usado para conhecimento do estúdio, seus equipamentos e possibilidades. No segundo e terceiro dias, a banda gravou 10 músicas, que viriam a se tornar o álbum “Texas Flood” em sua totalidade. A experiência não poderia ter sido mais inocente, com a banda executando música após música com a garra que sempre apresentaram. Ou como disse Tommy Shannon: “- Nós encontramos um espaço, montamos nossa aparelhagem em um semicírculo de modo que todos se enxergassem, e tocamos como uma “live band”. Uma das canções mais conhecidas de Stevie, “Pride and Joy”, foi gravada no dia 24 de novembro de 1982, tendo Richard Mulle, Stevie, Shannon e Chris Layton como produtores do álbum.
Em 1983, o lendário produtor e descobridor de talentos John Hammond, de posse da então demo-tape que viria a se tornar o álbum, consegue um contrato para a banda junto à Epic. Hammond é conhecido por ser o responsável pelo “descobrimento” de artistas como Countie Basie, Billie Holiday, Charlie Christian, Bob Dylan e Aretha Franklin, entre tantos outros.


O álbum “Texas Flood” é finalmente lançado no dia 13 de junho de 1983 pela Epic Records, atingindo posteriormente a 38ª posição da parada de álbuns da Billboard. O single extraído do disco, o da música “Pride and Joy”, atinge a 20ª posição da parada de AOL (Adult Oriented Rock) da Billboard. É ainda gravado um video-clip para a música “Love Struck Baby”. O álbum não só expôs o talento de Stevie para um número ainda maior de pessoas, mas também provou que tanto o Blues como a música orientada para a guitarra não estavam mortos.


“Love Struck Baby” mostra como Chuck Berry foi importante para a formação musical de Vaughan, com destaque absoluto para a bateria cheia de criatividade de Layton. Na sequência, “Pride and Joy”, mostra porque se tornou “o clássico": um blues simples, direto, com direito a solo antológico de Steve.
As apropriações de “Tell Me” e o mega clássico “Mary Had A Little Lamb” (Buddy Guy) tem o mesmo efeito no ouvinte que “With A Little Help From My Friends” com Joe Cocker: nos fazem esquecer que a autoria pertence a outros gênios. A Strato do guitarrista parece rugir e prestes a partir ao meio a cada vez que surgem alguns de seus memoráveis solos “fluidos” (como Eric Clapton já definiu o som de Stevie).





"Texas Flood" é o Blues meloso, dedicada à esposa do guitarrista, Lenny. São nesses registros que, como se diz no popular, “se separam os homens dos meninos”. Enquanto na primeira Vaughaun honra a tradição do feeling incomparável de Albert King - assim como fez em “Rude Mood” - na segunda mostra todo o feeling represado, construindo um tema instrumental que faria jus a introdução histórica de “Little Wing”.
O baixista Tommy Shannon lembra das sessões  "era realmente apenas um grande armazém, com piso de concreto e alguns tapetes jogados para baixo. Acabamos de encontrar um cantinho, criado em um círculo olhando e ouvindo um ao outro e tocamos como uma banda ao vivo".


Vaughan e Double Trouble percorreu a América do Norte e Europa em junho e dezembro de 1983, para apoiar "Texas Flood" . Em 11 de julho de 1983, eles se apresentaram no El Mocambo em Toronto e um filme foi lançado em Dezembro de 1999 pela Sony chamado "Live at the El Mocambo" em DVD . Uma performance de Austin City Limits também foi lançado no vídeo Live from Austin, Texas. Em 22 de agosto de 1983, a banda realizou um concerto esgotado no The Palace em Hollywood. O show foi transmitido pela King Biscuit Flower Hour e três faixas foram incluídos na reedição do "Texas Flood". A turnê continuou pela Europa e a banda apareceu no Festival de Reading , na Inglaterra. Eles voltaram para os Estados Unidos e abriram 17 shows para a The Moody Blues.
Vaughan e Double Trouble partiu em uma turnê de sucesso e rapidamente gravou seu segundo álbum, Couldn't Stand the Weather, lançado em maio de 1984, também pela Epic. O álbum foi mais bem sucedido do que o seu antecessor, alcançando o número 31 nas paradas e até o final de 1985, o álbum ganhou disco de ouro. Vaughan escreveu metade das oito faixas do álbum. Durante janeiro de 1984, Vaughan e Double Trouble passaram 19 dias na Estação de Energia no bairro de Manhattan, em Nova York. John Hammond foi nomeado produtor executivo e supervisionou as sessões de gravação;
A primeira faixa gravada era um cover de Robert Geddins, "Tin Pan Alley", que foi feito em um take . Hammond disse no microfone: "Isso é o melhor que você vai ter dessa música. Isso soou maravilhoso".
O irmão de Vaughan, Jimmie Vaughan , jogou guitarra em "Couldn't Stand the Weather" e "The Things That I Used to Do". Para "Swang de Stang", a baterista Fran Christina e o saxofonista Stan Harrison também fizeram suas contribuições.




"Couldn't Stand the Weather"  foi produzido pela banda juntamente com Richard Mullen e Jim Capfer. O álbum foi projetado por Mullen e Rob Eaton. Com a ajuda de Shostal Associates para a fotografia de um tornado, o artista gráfico Holand MacDonald projetou a arte da capa.
Vaughan e Double Trouble percorreram a América do Norte, Europa e Oceania, de fevereiro a dezembro de 1984. Em 15 de abril de 1984, eles realizaram um show na Opera House, em Austin, Texas, que foi transmitido pela King Biscuit Flower Hour. Eles também abriram o show para a Huey Lewis & The News em 3 de agosto na USF Sun Dome em Tampa, Flórida.
A banda foi para Canadá e realizou três shows, sendo um no Spectrum em Montreal, também transmitido no King Biscuit Flower Hour. De Montreal, eles foram para a Alemanha e fizeram um show no Loreley Open-Air Theatre, que foi transmitido pela Rockpalast.
Depois de voltar para os Estados Unidos, Vaughan e Double Trouble apareceu no Carnegie Hall, em Nova York, no dia 4 de outubro. O show contou com muitos convidados especiais e foi lançado no CD "Live at Carnegie Hall". Eles fizeram uma turnê na Austrália e Nova Zelândia em novembro de 1984, incluindo um de dois concertos esgotados no Sydney Opera House.
O Double Trouble acrescentou o tecladista Reese Wynans em 1985, antes que eles gravaram seu terceiro álbum, "Soul to Soul". O disco foi lançado em setembro de 1985 e também foi muito bem sucedido, alcançando o número 34 nas paradas.
Vaughan sugeriu que o álbum foi chamado de "Soul to Soul" , porque a banda "aprendeu muito" e "cresceu muito" nesse anos de estrada. Dois singles do álbum de "Change It" e "Look at Little Sister", atingiram o número 17 no Mainstream Rock Tracks.



Em Março de 1986, Double Trouble dividiu o palco com The Fabulous Thunderbirds durante uma turnê na Austrália e Nova Zelândia. A banda gravou concertos ao vivo em três noites de uma turnê subseqüente dos EUA, em Austin e Dallas. Essas gravações foram lançadas como "Live Alive"  em 17 de novembro de 1986. O álbum incluía uma música inédita de Stevie Wonder: " Superstition ".
Vaughan mais tarde admitiu que o álbum não foi o seu melhor, dizendo: "Eu não estava em muito boa forma quando gravamos o "Live Alive" . Na época, eu não sabia o quão ruim eu estava por dentro... Alguns acordes saíram do controle..."
O vício de Vaughan em álcool e em cocaína se acentuou durante a turnê com o Double Trouble, chegando a por em risco a vida tamanha a quantidade usada. Doyle Bramhall recorda que havia "montes de cocaína, que em cima do órgão", dizendo: "Onde eu estava fazendo um monte, Stevie estava fazendo cinco vezes, dez vezes mais...". O estômago de Vaughan tinha cicatrizes de dissolução de meio grama de cocaína em álcool, deixando centenas de pequenos cortes no revestimento da parede. Durante uma turnê pela Europa, um mês depois, Vaughan foi hospitalizado em Ludwigshafen para se recuperar de uma quase overdose e também por causa da desidratação depois de anos de álcool e abuso de substâncias. Tommy Shannon disse que, quando Vaughan tentou se levantar de sua cama de hotel, ele vomitou por todo o peito e foi coberto com uma poça de sangue. Layton lembrou:
Chamamos uma ambulância e os médicos alemães apareceram em longas batas brancas, gritando em alemão um  para o outro. Eles tiraram-no do quarto e gritamos: 'Ei! Espere um minuto! Que está acontecendo?' Eles não falavam uma palavra de Inglês, e nós não falávamos alemão. Eles queriam levá-lo ao hospital. Nós continuamos gritando: 'Onde você está levando? O que está acontecendo? Como é que vamos encontrá-lo?' Eles estavam dando-lhe soro fisiológico, verificaram seus sinais vitais. Ele estava sofrendo de desidratação e overdose. Enquanto ele estava deitado na cama, olhei em seus olhos, era como olhar nos olhos de um veado morto na beira da estrada. Era quase seco, sem vida. Eu fiquei com medo.
De repente, a vida voltou a seus olhos e ele disse: 'Preciso de ajuda'. Encarei isso como o momento em que ele percebeu que isso tinha que mudar. Não é como, 'Eu preciso ficar melhor para que eu possa voltar a fazer o que eu estava fazendo, "mas" tudo tem que mudar.' "



Vaughan foi internado por um médico em uma clínica de reabilitação em Atlanta, para começar uma recuperação completa. Cerca de um mês depois, ele fez check-out em Peachford e voltou para a turnê. Totalmente recuperado e saudável, Vaughan começou a viver um estilo de vida espiritual mais ascético afim de manter a sobriedade e evitar uma recaída. Ele permaneceu livre de drogas e do álcool pelo resto da vida e continuou a descrever a si mesmo ainda como um alcoólatra. Bonnie Raitt lhe deu a coragem ao dizer que Vaughan era um músico ainda melhor quando sóbrio.

Albert King, B. B. King, Eric Clapton e Steve Ray. 
Em Outubro de 1988, Vaughan começou a gravar seu quarto álbum de estúdio com o Double Trouble, In Step (1989). Ele gostou da chance que o álbum oportunizou para expressar sua experiência com a sobriedade. Vaughan trouxe com ele sua profunda devoção a música, o que teve um impacto positivo na banda durante a gravação do álbum. Seu objetivo era melhorar sua forma de tocar guitarra. Essa motivação foi impulsionada por um desejo de fazer melhores músicas ou como o baterista Chris Layton, mais "música essencial". Muitas das canções do álbum, foram escritas durante "Live Alive" Tour. O álbum foi estilisticamente o contrário de seus álbuns anteriores, com menos Blues e mais original, material orientado para o Groove. "In Step" atingiu a #33 posição nas paradas, ganhando um Grammy de Melhor Gravação de Blues Contemporâneo e ganhou disco de ouro em pouco mais de seis meses após o lançamento.
Em Janeiro de 1990, Vaughan fez um discurso em uma reunião do AA; uma gravação e transcrição do discurso foram amplamente divulgadas na internet. Em 30 de janeiro, Vaughan fez uma aparição no MTV Unplugged em Nova York, realizando " Rude Mood "," Pride and Joy "e" Testify ". Em março, Vaughan colaborou com seu irmão, Jimmie, para gravar "Family Style" , produzido por Nile Rodgers, que foi lançado em 25 de setembro de 1990. Contendo dez canções, o álbum foi um projeto muito aguardado para os dois irmãos. Jimmie disse que as sessões de gravação "pareciam naturais", era quase como se estivéssem "de volta para casa". O álbum do Vaughan Brothers foi lançado em setembro e entrou nas paradas no número 7. "Family Style" começou uma série de lançamentos póstumos que eram tão populares como os álbuns que Vaughan lançou em vida.
Em agosto de 1990, Double Trouble fez dois concertos com Eric Clapton, realizados no Alpine Valley Music Theatre em East Troy, Wisconsin. O segundo dos dois shows aconteceram em 26 de agosto e contou com uma Jam Session, incluindo Vaughan, com Clapton , Robert Cray , Buddy Guy e Jimmie Vaughan, que cantou " Sweet Home Chicago ". Clapton apresentou-os como "os melhores guitarristas do mundo inteiro".

O último show de Steve Ray Vanghan (1990).

O baterista Chris Layton descreve a conversa que teve com Vaughan nos bastidores após o show: "A conversa foi na verdade muito leve, não havia nada de pesado nele. Foi como 'esta é uma boa noite inesquecível e foi muito bom estar aqui', e falou sobre o registro de que ele e Jimmie acabaram de fazer, como eles tinham se divertido e que foi emocionante. Ele estava ansioso para sair e fazer outro registro. Ele estava de ótimo humor. Quero dizer, nós apenas tivemos duas grandes noites e nós conversamos sobre todos os tipos de coisas. Conversamos, eu acho, quase 30 minutos.
Então ele se levantou e disse: 'Eu vou voltar a descer para o vestiário por um minuto.' Eu não sei, talvez cinco minutos ou mais, ele voltou com um paletó e suas malas. Eu disse: Ei, o que você está fazendo? E ele disse, 'eu vou voltar para Chicago.' Eu disse: Agora?  E ele disse: 'Sim, eu tenho que voltar. Eu quero encontrar Janna ', sua namorada, em Nova York. Eu pensei: Nossa, você pode vê-la depois", mas ele se virou e disse: 'Me ligue quando você voltar. Eu te amo.', e meio que me deu aquele piscar de olhos que ele faria. E então ele se foi. Ele simplesmente desapareceu na noite."
Em 27 de agosto de 1990, Vaughan tinha acabado realizar o último show com a Double Trouble no Alpine Valley Music Theatre em East Troy, Wisconsin. Todos os músicos embarcaram em quatro helicópteros com destino a Chicago, que estavam esperando em um campo de golfe nas proximidades. De acordo com uma testemunha, havia neblina e nevoeiro com nuvens baixas. Apesar das condições, os pilotos foram instruídos a voar sobre uma colina de esqui. Vaughan, juntamente com três membros da comitiva de Eric Clapton (o agente Bobby Brooks, o guarda-costas Nigel Browne e o assistente da turnê Colin Smythe), embarcaram no terceiro dos quatro helicópteros - um de Bell 206B Jet Ranger - voando para Meigs Field. Por volta das 12:50 ( CDT ), o helicóptero partiu de uma altitude de cerca de 850 metros, virou à esquerda e colidiu com o morro. Todos a bordo, incluindo o piloto, Jeff Brown, morreram na hora. Em Clapton: A Autobiografia , Clapton explica que, ao contrário rumores, o seu lugar não foi trocado com Vaughan, como indicado acima, três membros da comitiva de Clapton foram a bordo com Vaughan, no momento do acidente.


Às 4:30 da manhã, a Patrulha Aérea Civil foi notificada do acidente, acabou localizando quase três horas depois. Tanto Clapton e Jimmie Vaughan foram identificar os corpos, uma colar de cruz copta usado por Vaughan, foi dada a Jimmie Vaughan. O legista conduziu uma autópsia e constatou que Vaughan sofria de várias lesões internas e do crânio.
Segundo o Milwaukee Journal Sentinel , um piloto veterano da Alpine Valley suspeitou que Brown tentou voar ao redor da colina de esqui, mas calculou mal a localização. Clapton emitiu um comunicado no dia seguinte, dizendo que as vítimas "eram os meus companheiros, meus companheiros e meus amigos. Este é uma perda trágica de algumas pessoas muito especiais. Vou sentir falta de todos eles".
O sepultamento de Vaughan foi realizado no dia 30 de agosto de 1990, no Cemitério Laurel Land em Dallas, onde foi enterrado ao lado de seu pai e foi precedido por um serviço de capela privada para amigos próximos e familiares. Kim Wilson , Jeff Healey, David Bowie, Charlie Sexton, ZZ Top, Colin James e Buddy Guy participaram do evento. Stevie Wonder, Jackson Browne e Bonnie Raitt cantaram "Amazing Grace" no evento. Em 1995, a família Vaughan recebeu uma indenização pelo homicídio culposo.
O álbum "The Sky Is Crying", uma coleção de outtakes de estúdio compiladas por Jimmie, foi lançado em outubro de 1991 e entrou nas paradas no número dez e ganhou disco de platina três meses após seu lançamento. Uma gravação de um concerto Double Trouble em 1980, foi lançado no outono de 1992 e uma compilação Greatest Hits foi lançado em 1995. Em 1999, os álbuns originais de Vaughan foram remasterizados e relançados. Além disso foram lançados, no mesmo ano, o The Real Deal: Greatest Hits, Vol. 2. No ano 2000, foi lançado o "SRV": caixa de quatro discos, que concentrou as outtakes, performances ao vivo e raridades.


A música de Vaughan se enraizou na fusão do Blues, com o Rock e o Jazz . Ele foi influenciado pelo trabalho de artistas como Jimi Hendrix, Albert King, BB King, Freddie King, Albert Collins, Johnny "Guitar" Watson , Buddy Guy, Howlin 'Wolf, Otis Rush, Guitar Slim, Chuck Berry e Muddy Waters.
Ele também foi influenciado por guitarristas de jazz, como Django Reinhardt, Wes Montgomery, Kenny Burrell e George Benson. Enquanto Albert King teve uma influência substancial sobre Vaughan, Jimi Hendrix foi sua maior inspiração. Vaughan declarou: "Eu amo Hendrix por muitos motivos. Ele era muito mais do que apenas um guitarrista de Blues. Ele tocou muito bem qualquer tipo de guitarra. Na verdade eu não tenho certeza se ele ainda tocava violão, ele tocou... música".
Muito além dessas influências, Steve Ray Vaughan também se tornou uma lenda do Blues,  sendo postumamente adicionado ao Hall da Fama do Blues.
As músicas de Steve introduziram uma nova geração a músicas que, de modo único e com personalidade, deixavam evidentes as influências de Stevie. Isto só reafirma a genialidade de um artista que sempre se preocupou mais em aperfeiçoar-se em sua arte do que em vender álbuns.

Formação
Steve Ray Vaughan - Guitarra e Vocais
Chris Layton - Bateria
Tommy Shannon - Baixo
Reese Wynans - Teclado
Joe Sblett - Saxofone

Discografia

Álbuns de estúdio
Texas Flood (1983)
Couldn't Stand the Weather (1984)
Soul to Soul (1985)
Live Alive (Ao vivo em 1986)
In Step (1989)
Family Style (Com seu irmão Jimmie Vaughan, como "The Vaughan Brothers", em 1990)
Last Farewell (Gravado durante a sua última turnê nos Estados Unidos (1990)

Gravações com lançamentos póstumos
The Sky Is Crying (1991)
In the Beginning - 1992 ( gravado em 1980 )
Live At Carnegie Hall - 1997 ( gravado em 1984 )
Albert King With Stevie Ray Vaughan – In Session - 1999 ( gravado em 1983 )
Solos, Sessions & Encores (2007)

Compilações
Greatest Hits (1995)
The Essential Stevie Ray Vaughan and Double Trouble (1995)
Crossfire - Salute to Stevie Ray Vaughan(1996)
The Real Deal: Greatest Hits Volume 2 (1999)
Blues at Sunrise (2000)
SRV (Caixa com gravações antigas, raridades, hits, material ao vivo) (2000)
Live At Montreux 1982&1985 (2001)
Martin Scorsese Presents The Blues - Stevie Ray Vaughan (2003)

Fotos dos vinis







Fotos: Diego Kloss

Um comentário:

  1. Tenho ouvido muito Stevie Ray Vaughan ultimamente.

    Apesar d'eu ser medíocre como guitarrista, sou um grande apreciador da boa música do século XX, especialmente do blues. Eu não tenho dúvidas que de Stevie, além de nos entreter até hoje com sua boa música, será sempre lembrado como um dos músicos mais incríveis que já caminharam por esse mundo. Um verdadeiro artista.

    Stevie Ray Vaughan é puro feeling!

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